terça-feira, 17 de março de 2009

America dos Indios

Encontrámo-nos na minha varanda, já de madrugada. A silhueta do Poodle de robe turco recortou-se contra o rio. Constatamos, em silencio, o imenso transito - as luzes pequenas, as luzes que cruzam a superfície rasgada, ao meio, pelo rasto da lua. Circunspeto, mas sempre displicente, o Poodle fixa-me. Com seus olhos muito pretos, muito pequenos, muito condensados. Diz: temos que devolver a América aos Indios.

...enfim





um dia ligo-te para combinarmos, sei lá, e chorarmos um bocado

enfim.

nas ilhas das noites quentes



Lânguidos e lentos foram os dias que prolongaram o verão por um tempo surdo. Os corpos, já cansados de lutar contra a secura, recordavam os tempo em que a chuva cobriu de verde os caminhos e vestiu de frondoso lustre o capim. Dos dias em que mordiamos bagos de café, torrado. E depois de tudo, quando a luz da manhã cruzou o pó suspenso, regressámos aos tempos em que atravessámos um continente, recordámos os encontros perdidos, e a dor de ser somente por nada mais sobrar que o hábito de ser. Em silêncio, lembrei os corpos que me cruzaram sem me sentirem. E não consegui deixar de pensar no nosso reflexo, pelas montras de tantas cidades e nas janelas dos comboios - de tão parecidos que fomos, ao ponto de nos termos julgado como o mesmo. E perdi-me nas horas que entraram pela tarde, recordando, como me havia perdido em tempos, pelos teus braços, desenhados com mapas celestes em marcas douradas. Prolongavam os meus, num espanto quase insuportável, gerando o céu onde explodiu o meu peito - como nunca dantes, nas ilhas das noites quentes. Descanso agora. Já não tenho corpo nem sinto o sabor do café. 
Lembro-me somente que te recordavas, na primeira noite em que te senti, que havíamos estado juntos, numa vida antes de termos nascido.

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um homem cruza o tempo, sem imagem, sem corpo. traz consigo uma dor que não lhe pertence, uma bondade que de si brotou. todos. visita-me em silhueta, todas as noites. aguarda-me num umbral de luz. uma janela, uma porta, não me sei. quem a deve atravessar? quantas vidas já viveu antes de viver a minha?

a mala

Sempre gostei de olhar para dentro da mala das senhoras. É um pouco inconveniente, eu sei – e há quem não goste. Com um olhar certeiro lançado para dentro de uma mala, consigo fazer uma rápida arqueologia dos afectos, das afinidades electivas, dos gostos e até de segredos de quem a usa. Já vi muitas malas. Malas no metro, malas no ginásio, malas no comboio, malas no avião, malas nas bibliotecas, malas de namoradas, malas de amigas, malas das tias, malas das avós, a mala castanha da minha mãe, malas singelas, malas obscenas, malas desarrumadas, malas aprumadas. Escovas de cabelo, baton, agenda, chaves de casa, as vezes do carro. Por vezes um livro, normalmente romances, e sempre um telemóvel. Apesar de tudo, o conteúdo pouco varia.
Um dia encontrei uma mala preta. Não era de ninguém, era por sim mesma. Não existia por ser de alguém, sempre existiu como mala sem que para o ser tivesse de ser submetida ao uso. Cruzámo-nos numa casa de chá. Eu bebia chá de âmbar e as minhas mãos – mãos iluminadas pelo Inverno rasante, partilhavam com o tampo da mesa a sombra do gradeado da janela.
A mala estava lá sentada, à minha frente, muda. Mala média, preta, tecido, indiferente, prática. Para usar a tiracolo. A primeira e única coisa que me disse – e com orgulho - foi: Nunca fui roubada. Nada mais soube, pela sua própria voz. E nunca soube porque é que ela estava naquela casa de chá, porque é que me disse aquilo, como lá chegou e para onde foi. Também não me preocupei com o assunto. Nem, naquele momento, se seria a mala de alguém. Estava ali, sentou-se na minha mesa e falou comigo. Que argumentos mais necessito para justificar o facto de a ter aberto? Já reconheci a inconveniência da minha curiosidade, já sei tudo isso – as malas não se sentam porque não têm pernas, as malas não falam, a mala é um artefacto não uma entidade com autonomia e vontade, quando é que cresces, quando é que te deixas de bizarrias e passas a viver no mundo das pessoas normais?, fazia-te bem deixares-te dessas merdas que assustam os outros, patati, patata, - já sei isso tudo, e não me interessa. Nem um bocadinho. Por isso abri a mala. Ela falou, eu libertei as minhas mãos da intimidade com a luz do Inverno e, claro!, abri a mala. Se me arrependo? claro que não!
Que desilusão. Nada de especial, mala banal. Fala e é banal. Porra, que desperdício! – foi o que pensei. Um livro de poesia, um livro de haikai todo riscado com desenhos -( o que as pessoas fazem aos livros !) –, um livro das polaroids russas e poemas do Tarkovsky; uma máquina polaroid land camera 100, um pacote de filme fuji, umas chaves atadas a um cordão de cabedal, uma caneta preta, uma lapiseira, dois cds sem capa, algumas fotografias soltas, sementes secas, uma fotografia de três velhinhas a acenar do céu, uns óculos ray-ban, um telemóvel todo partido, uma giboia com aproximadamente 20 metros deformada na zona do abdomén pelo último menino que comeu, um sofá luís XIV bem talhado e forrado com o adamascado que juro ser mais tardio que a estrutura, uma iluminura que se soltou de um livro e goza as liberdades da não subjugação a um suporte e a uma narrativa – é uma letra capital dourada, um A gótico rodeado de rosas silvestres (que abanam com esta corrente de ar) e colibris com patas de cão, uma edição antiga das Metamorfoses de Ovidio em escala pequena, ( dois centímetros, aproximadamente), um embondeiro, um lustre de tamanho médio. Entre outras coisas mais banais ainda.
A única coisa que não percebo é como é que nunca foi roubada.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

VANDELLI BOX



Sei de um jardim antigo, muito antigo. A variedade das espécies que por lá se encontram tocam uma quantificação próxima do infinito. O jardim é cuidado. Está a cargo, de uma estirpe notável de homens e de mulheres, coadjuvados pela arte da música e das belas representações visuais - a arte do desenho e da pintura, da arquitectura e das alquimias interiores. Chamam-lhes poetas ou artistas, filósofos ou escritores, lunáticos ou nefelibatas. Eu sei do Jardim. Mas não sei de nada disso - limito-me, tão simplesmente, a passear pelo Jardim. Não poderei negar, no entanto, que sei que estes senhores, catalogados nessa fiada de nomes... artistas, filósofos, escritores, lunaticos...dedicaram-se, ao longo dos séculos, a aprofundadas investigações. Estudam as sementes da Língua, a musicalidade das composições concretas, a hibridação das formas, a visualidade da caligrafia. Sei que conhecem e trabalham - alguns intuitiva outros cientificamente, a genética das pétalas e dos caules, que dominam a subtil poética da floração e da polenização, da combinação e da poda.
Notaveis são os canteiros que povoam este jardim: ora organizados em paragrafos, ora em singelos haikai, ora em longas prosas poéticas. Pelo Outono, encontrei já - flutuando ao ritmo helicoidal dos caprichos do vento quente - silabas soltas, já desgastadas pelo uso nos tempos do Verão. Continuo a achar que devem ter pertencido a poemas de amor, ou a canções. São muito requesitados.
Confesso que que gosto de me demorar no labirinto barroco, onde dos caules de buxo despontam poemas simples, arrojados na visualidade e recordando sempre a vanitas. Vanitas condição de toda a materia que se escapa à perene fragrancia da Arte. Arte e de viver.
Já me disseram, e posso dizer quem: um dos filantropos que poda o canteiro dos contos fantásticos - homem singular e reconhecido pela sua capacidade de hibridação das sementes linguisticas, que para lá do labirinto barroco começa  a floresta da filosofia moderna. Nunca estive por lá, mas todos os que passeiam no Jardim sabem que é, por natureza, concentrada e emersiva. Que dos troncos das árvores que nela habitam - fortes e estruturados, brotam acutilantes conceitos, duros e perenes como as agulhas dos pinheiros. Essas que somente se suavizam na intimidade do orvalho. Soube que os caminhos que cruzam a floresta são estreitos, e por vezes enganadores.  Contam as estórias, que muitos por lá já se perderam - incapazes de gerir a arte do nexo e da alegria de viver. 
Sempre que me sento no jardim dos poemas barrocos, penso na floresta da filosofia, e na curiosidade que em mim desperta. Mas por outra razão, é verdade. O filantropo dos canteiros do fantástico falou-me de um recanto, por lá perto, no fim do caminho estreito,  onde brotam bambus, gigantes árvores exóticas e flores de dimensão e fragrância ímpar. É destas que se soltam, quando são tocadas pelo vento, koans e as palavras simples, capazes de de-estruturar toda a realidade. Já houve quem se tenha aventurado por lá. Dizem. E diz-se, também, que se tornaram pessoas realizadas. 
Talvez um dia siga pelo caminho estreito e perfumado que atravessa a floresta da filosofia.

sexta-feira, 29 de junho de 2007



Corremos sobre a espada de luz e ninguem nos pode parar. A noite, vestida de veludo cinzento, embainhou a espada de luz, sobre o mar.

Amo o vento sobre o estio, a chuva que salpica os caminhos, o calor das falésias. Sou em tudo, nada me detém - nem eu mesmo.

...



Sonho-me. Vejo o meu corpo desfocado. Sonho-me com imagens que se encaixam com peças de um grande jogo, e entre elas as imagens dos espelhos - nestes estão reflectidas formas de afectos - sentimentos em expressão tonal - uma sonoridade familiar. Tenho um corpo outro, moldado por uma configuração que nunca foi a minha - e circulo, como uma briza, entre o que é matéria de reflexo. Corpos de gente indefinida, dos quais vejo apenas a silhueta recortanta entre a vibração tonal emanada pelos espelhos. Temos os pés emersos em água - ou será mercúrio? Sinto toda a planta dos meus pés. Olho as minhas mãos. E tudo se condensa agora no meu peito - uma dor antiga, cuja origem não me recordo, cuja presença sabe mais de mim do que eu próprio. Participa, de algum modo indefinido, da delicadeza com a qual o vento toca, nos dias do estio, o teu pescoço. Tens um pescoço dourado. Vejo as peças do grande jogo - encaixadas como espelhos - entre estas, o veludo dourado do teu pescoço, um vibrato azul, muito ténue, da cadência suave da tua respiração.

Um raio único

As manhãs já não foram com se esperava que fossem. Ali, passou a saber que os dias tinham a duração das horas e que as horas nunca demoravam mais do que um ano. Ou dois. Aí, a expectativa anulou-se, como se espera que se anulem os desejos.E as esperas longas. Afinal, não poderia esperar por ninguém, nem por nada. Porque todos se incluiam, em dimensões variáveis, num corpo único.
Numa dessas manhãs, em que delas já se sabia não se poder desejar a continuidade de um dia, o Sr. A.R. pensou ter encontrado a particularidade do sistema. E pensou poder congregar - nesse pensamento - todos os principios alquimicos onde a acção implicada em VITRIOL organiza em medida de ordem e potencialidade, escapando à margem entrópica de tudo o que já havia analizado, a franja de todas as expectativas.
Dançam dois raios dourados das manhãs, pelas paredes demasiados brancas. Pelo caminho, cruzam-se com a poeira semi-suspensa. A poeira dos dias e do que ficou dos encontros. Afinal, nada disso é assim tão importante. Sr. A.R. tentava convencer-se disso.
Somos em espaço negativo ou somos em espaço positivo? Ou será que somos o espaço que de delimita pelos encontros. Espaços que combinam mundos, que geram galaxias, que instauram campanhas arqueológicas nos passados e fragmentam os cristais do hábito. Confirmava-se, na observação atenta da poeira, o que no peito de Sr. A.R. doia em vazio: os fragmentos dos espaços gerados dos momentos, presentifica-se em poeira suspensa, delimitada a ouro pela luz.
A ausencia em tudo se confirma. A distancia revela o banal, o brilho das coisas participa de Deus. Como o brilho do teu olhar, acrescentou, sussurrou, repetiu num quase silencio. É aí que se condensam todos os fogos, onde não somos nem um nem dois, nem todos nem passado, nem eu nem tu. Um corpo único - o fogo que queima o tempo na sintese dos dias nas horas e nas horas que sempre ultrapassaram um ano.
Um raio único cruza a poeira dos dias. No meu peito repousa um guerreiro.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Botânica

Acordo e sinto o teu perfil, desenhado a luz, contra o papel adamascado deste quarto antigo. Tão antigo. Sinto-te na antiguidade ancestral da tua presença no meu corpo. Disseram-me que as paredes deste quarto contam estórias de feitiçaria e magia cigana, e que sabem das mágoas e dos sonhos de todos os que aqui adormecem. De todos os que dão a mão, perdendo-se, na companhia de Orfeu. Disseram-me também, que pelos ramos do padrão do papel de parede, elas os agarram, devendo-se a esse fenómeno, a distinta variedade de flores que compõe esta parede. Diz-se, e eu confirmei, que os sonhos aqui capturados são pelas flores guardados, enformando as pétalas, caules e folhas impressas nessa superficie acetinada, brilhante.
Sinto as minhas costas estenderem-se contra o colchão mole. Também são costas antigas. Na ausência do teu perfil, tento localizar no papel de parede os teus sonhos, e os sonhos que aqui sonhámos juntos.

O Jogo dos espelhos.No silêncio, tal como na ausência

Por vezes, no lusco-fusco da consciência, quando ainda não dormimos mas também não estamos despertos, sonhamos - ou melhor, somos visitados. Somos atravessados por vidas - strata de imagens, arqueologias de afectos, condensados de sentimentos e fotografias desfocadas de nós mesmos.
Num desses dias em que as chuvas cobriram de verde os caminhos e em que o capim se perfumou de frondoso lustre, fui visitado. Num espelho, outro espelho estava reflectido. Um espelho que é objecto de um outro espelho confirma a natureza do espelho, pensei. Confirma-se a si mesmo. Deixei de respirar. O espelho não se limitava a reflectir e, no espaço tenso deixado pela suspensão da minha respiração, tive a certeza de que os espelhos se procuravam nos reflexos. Sabiam-se não coincidentes com a moldura ( uma barroca, outra resultado dessa linhagem de objectos nascida depois da grande exposição de 1925), nem com a forma. Nem com o tempo, nem com os percursos ( quantas vidas não viram já os espelhos de tantos séculos').
Encontravam-se na matéria do reflexo, confirmavam-se no encontro com o outro espelho, sem no entanto, nenhum deles ter consciencia de ser um espelho - o reflexo do mesmo encontra o mesmo, mas sem objecto, o mesmo é o seu próprio encontro. O Jogo dos espelhos. Acordei, ou melhor, regressei. A chuva rolava, de novo, em fiadas de pérolas pelos vidros do carro. A viagem continua. Como o jogo dos espelhos.
Os rails rasgam a branco, sincopada e ritmicamente, a chapa nocturna. Deixou de chover.A viagem continua. Sinto o cheiro húmido da noite e tenho por companhia estes céus estrelados que somente o hemisfério sul nos pode dar. No silencio, tal como na ausência, todas as presenças se confirmam.
Viajo como um cometa, tenho cauda de asfalto.
Sempre soube que é na noite das viagens que as memórias me tomam - ecoam, formatadas à medida da música que salta do rádio. E deixo de ouvir. Sou tomado pela imagem do eco das semi-transparências que se encadeiam, entre mim e a estrada que corre, como embaixadas exóticas de raridades, aberrações e sublime maravilhoso. No exubrante cortejo que se anima sobre o tablier do carro, vejo-vos a todos. Por vezes sinto o cheiro dos momentos mais felizes, e com estranheza o calor, a vibração de alguns corpos com que me cruzei. Tudo se actualiza quando sinto. Quando sinto uma saudade tão antiga, uma saudade de um silêncio antigo.
No silêncio, tal como na ausência, todas as presenças se confirmam.