a cidade tem o teu cheiro na memória de dias que foram como estes, brilhantes nas pedras da calçada molhada, transparentes nas fiadas de luz entre as fachadas. Pelo muro de um jardim, escorria água num tempo distinto do meu, planos de castanho arrastando sementes trazem-me o fundo ocre com que contrastam, à memória no teu sabor. E onde estamos nós, dispersos pelos fragmentos do que nos tornamos.
A chuva já não apazigua o meu coração.
este tornou-se maior do que eu.
sábado, 21 de Novembro de 2009
sábado, 17 de Outubro de 2009
quarta-feira, 19 de Agosto de 2009
terça-feira, 18 de Agosto de 2009
A cauda do cometa
Em Amares, de onde é o performer que cozinha para o seu público que assim passa a ser conviva e parte do ritual, existe uma biblioteca. Nessa biblioteca, escondida e perdida, uma fiada de livros de lombada verde e data de edição elegível, versa sobre o assunto dos vestígios de matéria estrelar, e coisas afins, no planeta Terra. Às longas horas que dediquei a esses livros, em estudo acurado e tempo dedicado, corresponderam dias de Inverno, solitários nas copas despidas e musicais no encontro da chuva com as janelas. Dias tão frios quanto escuros, dias que repousam na memória do mesmo modo que o feixe amarelo-torrado do candeeiro de pé que me serviu de companhia, se deitou por longas horas sobre as letras dos livros da lombada verde. Para além das exaustivas descrições e relações químicas entre metais e outros elementos, a sua datação e catalogação, a Colecção dedicou alguns exemplares às Origens e Manifestações, entre o tomo V e VII. O Capitulo, II do tomo V, é aberto com notável uma gravura datada de 1610, assinada VM. Nesta singular imagem, um conjunto de árvores açoitadas pelo vento, presenciam a chegada de um cometa, de grande cauda, rasgando o céu. Nas longas horas que dediquei à observação desta rara imagem, percebi que o mapa celeste desenhava um dia, uma hora e uma localização geográfica precisa. Que as árvores, desenhadas com a perícia de um Vandelli, eram retratos e que à direcção do vento, de norte para sul, correspondia uma progressiva claridade. Na singularidade, por vezes bastante aborrecida, do modo como a Colecção se organizava, somente consegui encontrar a justificação para a gravura no último capitulo do tomo VII. Nos capítulos que os mediaram, aprendi sobre a relação entre as árvores e o vento, entre os minerais cósmicos presentes no solo e a floração na primavera, entre a beleza das copas e a profundidade das raízes. Assim, chegada ao derradeiro capitulo XVI do tomo VII, estava preparada para compreender a gravura de traço holandês e data setecentista. Neste, refere-se que ilustra um famoso conto vernáculo de acordo com o qual, num dia preciso do mês de Fevereiro o vento claro, chamado vento branco, brandiu sem piedade sobre toda a terra. Na sua origem desconhecida o conto passou de boca em boca até à sua compilação pelo editor anónimo da colecção de lombada verde. Nas tardes em que deixei descansar a biblioteca, questionei várias pessoas sobre a gravura e o seu significado. Mais tarde, sobre o conto. Ninguem destes se recordava e a única referência que consegui apontou para uma laje coberta de musgo, servindo de pedra de fecho ao arco da sacristia e onde se via uma figura feminina, sob a cabeça da qual pairava uma estrela. Na inocente alegria da confirmação, encontrei nesta um testemunho de que a data da gravura poderia ser verdadeira e de que o conto não seria o resultado da imaginação cavalgante do editor. O conto, tal como a lage, referem uma mulher, uma figura feminina que congrega no seu corpo a materizalização das relações entre todos os elementos, entre todos os vestígios estrelares e a vida na terra. Assim, no dia em que a constelação de Sagitário deu lugar à constelação de Aquário, um vento quente, raríssimo nos Invernos do hemisfério Norte e pela sua orientação, fez dançar todas as árvores, e numa coreografia de tal modo ritmada, que do som resultante da deslocação do ar por entre os ramos se compôs um enigmático verso: Depois de ter chegado ela mesma se vai esquecer/ que sendo uma deusa, viverá para compreender/e somente quem me ouvir/poderá na madeixa do seu cabelo de noite/a cauda do cometa descobrir. O tomo VIII e VIII fecham a colecção com um apanhado de outros contos, nenhum deles ilustrado. Não compreendo porquê.
segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
curta#4
numa querela de sentido, um argumento tenta subjugar o outro. Face a face, faiscam e movimentam ar. Na vitória, o argumento ficou só. Solidão do sentido.
curta#3
duas palavras disputam a velocidade da compreensão, desafiando na atmosfera toda a velocidade. esqueceram-se que são somente palavras, jamais compreensão. A dualidade.
curta#2
O reflexo solta-se do seu suporte, corre em direcção a outro e numa intoleravel velocidade cola-se-lhe sem pudor. O domínio.
curta#1
entre as duas portas recortadas na parede forrada a flores, verticaliza-se uma enorme racha, direita, negra. Por uma força irresistivel o meu corpo é sugado pela finissima e direita racha, saindo de seguida, por cada um das portas, em passo coloquial. As dúvidas, a dúvida.
sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
a antiga estória do urso
CATIPIRI. Este ano o Inverno tem sido apertado. Literalmente - nunca senti nada que me apertasse tanto as coxas uma contra a outra, o peito para dentro de si mesmo, a cabeça para dentro do pescoço. As esperas no metro são dolorosas. Olho à volta e quem tem frio pode abraçar-se a si mesmo, com os dois braços. Eu só tenho um, aqui as pessoas não gostam muito destas deficiências, já percebi. Mas eu não me importo. De qualquer forma, apesar de dolorosas, até gosto das esperas no metro. Em Catiripi não há metro, nem frio, e os pés tocam o chão seco e quente todo o ano. Tudo é uma espera, mas não esperamos por nada em particular – somente pelo que cada dia traz, pelo sol que se põe, pelos peixes que reluzem, pela areia que voa, pelas flores que abrem, pelas vidas que se apagam. Em Catipiri os dedos dos pés separam-se felizes com a liberdade, e os corpos emanam o odor da condição humana. E de lá lembro-me do andar das senhoras, do modo como os vestidos brancos moldam os movimentos dos corpos pretos e como os decotes deixam entrever o calor da pulsação pela qual se perdem muitos homens. Lembro-me do som das crianças a correr, do chilrear dos risos... o chilrear dos risos dos meninos....Aqui não ouço ninguém chilrear. Olho o meu reflexo nos escaparates dos moopies, do outro lado da linha. Entre o meu reflexo e eu, sinto as silhuetas duras de pessoas tão apertadas quanto eu, esperando o metro na direcção contrária. Sabes para onde vamos? Sim, respondo eu, disseste-me ontem. Agora sei sempre para onde vou. Não tenho um braço, mas tenho quem me diga para onde devo ir, e está sempre perto e já me habituei. E à noite, conta-me estórias incríveis, cuja verosimilitude é verdadeiramente duvidosa, mas cuja trama e personagens são notávelmente bons. Já ouvi estórias de tempos outros, em que a musica dos astros ainda ecoava pela terra, estórias das grandes reuniões de baleias brancas, lá para os lados do Árctico e das piadas que estas contam. Soube também porque é que sorriem constantemente – sabem um segredo. Mas como é segredo não o posso contar. Ouvi estórias de mundos que desconhecia totalmente, pelas terras de Catipiri. Os mundos das neves e das árvores silenciosas, os mundos das auroras boreais e das gentes douradas que cavalgam renas. Ontem à noite contou-me a estória de uma estrela candente, que trouxe às costas uma menina. Que essa menina, tão pequenina como uma baga silvestre, se formou da poeira da cauda da estrela, lentamente, à medida que essa poeira descia no sentido da terra, e que ao pousar os pés no chão, este se abriu num lento gemido, que do gemido se ouviu um som agudo e que desse som agudo se formaram os oceanos, se desenharam as praias e se teceram as ondas. Gostei desta estória, lembrou-me os meninos que chilream em Catipiri. Finalmente chegou o metro. O país é frio, mas vou sobrevivendo. Confesso, no entanto, que não sei o que seria de mim, sem a companhia e as estorias que me conta o meu casaco de pelo de urso.
quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
blues
Corro as planícies escurecidas por uma noite que cai sem convite. lenta e azul, na velocidade das janelas sobrepostas em reflexo, deste comboio nocturno. Oiço, vindas das profundezas da minha memória, as notas ritmadas que alinham, contextualmente, the night train. recordo a imagem de Dough Aitken, outros tempos e outras vidas, e vejo as copas das árvores tomarem a forma das nuvens, escuras todas, desenhadas a ponta seca contra as réstias de luz no céu. Um saxofone ... the night train pesa sobre as minhas pálpebras quando olho o reflexo do meu rosto no vidro. Já fui mais jovem e o meu olhar já foi mais leve. Por detrás deste, as nuvens são as copas das árvores e as copas das árvores tomam a forma de animais. Portentosos animais que se movem rápido e destros, correndo sobre a superfície lustrosa dos campos cultivados. Animais híbridos de um tempo sem memória vestem um corpo de folhagem e movimentam-se mais rápido que o vento - vejo um enorme rinoceronte perseguindo uma ave de longas pernas, atrás destes, segue um puro sangue, leve, rapidíssimo. o denso touro negro recorda-me a pintura grega e no vicio das imagens não consigo deixar de procurar os acrobatas filiformes saltando sobre o seu dorso. correndo, correndo mais rápido que as notas que ritmam os seus movimentos, o seus olhares cruzam-se, fixos, fundos como a noite, com o meu. mergulho nas profundezas, the night train. foto:http://www.flickr.com/photos/thisisawakeupcall/117029276/
segunda-feira, 27 de Julho de 2009
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quarta-feira, 15 de Julho de 2009
voltei hoje
num desses dias banais em que a cidade se veste de pó e calor, atravessei a praça quente para cumprir um encontro. Da ultima vez que ali tinha estado, sentado na paragem do autocarro, analisara todas as fachadas com cuidado e minucia e posso garantir, no rescaldo dessas investigações, que aquilo com que me vou hoje encontrar, lá não estava. A Relojoaria Maravilhas tem, como outros locais das nossas vidas, a particularidade de existir quando dela necessitamos. E, a verdade é que depois de longa arqueologia dos sentimentos e dos factos, admiti que não sou hoje quem desejaria ser. Nesse dia poeirento, quente porque vestido de Verão, vi a montra da Relojoaria Maravilhas. Fechada desde longa data, ninguem se recorda já quem foi o seu dono, ou o seu último cliente. O correio, amontoado em pirâmide incerta, do outro lado da porta, indiciava as longas décadas que haviam corrido desde o fecho mas, curiosamente, sob um véu de pó, um despertador digital, no canto superior esquerdo da montra piscava: c r e t i n o v o l t a a m a n h ã .
quinta-feira, 18 de Junho de 2009
trans-onirico acidental
A cidade voga ao nossos pés, relectida numa imensa superficie quente. Entre o fumo dos cigarros que se desenha em curvas sinuosas, todas as palavras confirmam os antigos encontros. De dia, jogo o jogo desta enorme ilusão consensual, de noite, encontro-nos a todos, nos bastidores das nossas vidas já vividas, do tempo que nunca aconteceu, de tudo que já teve lugar na fiada das ocorrencias. Está disposto a pagar o bilhete, pergunta o pequeno homem de dentes luzidios e expressão atormentada. Sim, claro, não há escolha, porque não sou eu quem escolhe, foi um acidente e a causa ainda ninguem a explicou, um grande acidente - acrescento, num sussurro. Nos bastidores somos quem realmente somos, sem o desejo de sermos outros, de sermos essas imagens de nos mesmos, acrescento ao letreiro do enorme trans-onirico acidental.
Quem deseja pagar o bilhete, entre, quem não deseja não se preocupe - lá estará na mesma, mas sem o gozo da viagem. A transacção é simples: a tua vida normal em troca do encontro e da ausencia do tempo. O trans-onirico acidental parte todas as noites, pontual, sem atrasos. Das suas janelas salto para a minha outra vida, para a tua, para essas cidades onde já estivemos e para os quartos onde já dormimos, para um outro tempo sem sequencia, onde não existem escolhas mas evidencias. Hoje encontrei-te num enorme quarto, com uma enorme janela. vestias roupas do corpo de outra pessoa e senti no meu colo o calor de um gato de pelo dourado. Na suspensão destes momentos, olho a enorme janela e sinto a tua companhia. Nos feixes de luz que atravessam o pó suspenso compreendo o que sou contigo, sabendo que somente o poderei sentir na viagem do trans-onirico acidental.
sábado, 13 de Junho de 2009
Sto António de Lisboa
e
na manhã quente depois dos assados vem sempre
palavra e coisa para aqui e lembras-te do que disseste para ali, do que pensaste e sentiste, do que desejas-te e fizeste. e da ultima vez e ontem e daquela vez e sempre, afinal foi sempre assim, sempre soube e ai pois isto e aquilo, e, e podia ser tudo simples, ser culpado é o mais fácil, afinal depois de todas as parvoices que já dissemos, o que resta para acreditar?
O sr. Nilismo sentou-se à mesa com uma sardinha, pensaram juntos: vamos criticar sem fundamento o manjerico ou o carapau. Cada um constroi o universo à medida das suas limitações.
os poemas de amor são os mais mentirosos.
sexta-feira, 12 de Junho de 2009
sábado, 23 de Maio de 2009
A. de cArtomante
Contra este tapete antigo sonho a presença do teu olhar. Persegue-me o brilho do único olho com que me vês: ao outro está reservado o consenso do mundo, onde te partilhas nessa imagem que nos assegura a sanidade. E perseguem-me as tuas palavras. Persegue-me a certeza da imagem nestas sonhada. Eu estarei lá sim, nesse dia em que tudo mudará.Os olhos escuros escondem um segredo, uma diferença qualitativa e analitica essencial. A, lindissima mulher, traz consigo um olho clinicamente considerado cego. Quando ainda menina, a pequena A viu o olho deixar de ver, com uma pedrada atirada, no recreio da secundária, lá para os lados do Algarve. A sua mãe, na preocupação de mãe, tudo fez para que o recuperasse, temendo ver a filha crescer desfigurada por um olho à deriva, incapaz de focar em sintonia com o outro. Mas tal não sucedeu, foi um facto. Apesar de cega, todos deram graças a Nossa Senhora da Conceição e do Ó, evitando-se ao esforço de compreender o que ficou catalogado como uma excepção na história da medicina óptica : o olho cego comportava-se como se não o fosse, apesar de o ser. Cordenado e certo, em nada desvirtuou a crescente beleza de A. Amada e desejada, apaixonada e delicada, tornou-se mulher nos desgostos amorosos, numa continua e crescente tristeza directamente proporcional aos numero de amados pouco amantes com que se cruzou. O brilho do seu olho cego, assustava os homens que na volupia dos momentos intimos se sentiam atravessados por uma subita consciencia analitica da sua própria natureza. Ao natural desconforto associado, seguia-se o abandono justificado com os argumentos mais banais - confortaveis fachadas na fuga da impossivel assumpção do medo. A. compreendia e conhecia a origem das fugas, e perante a inevitabilidade, vivia a solidão dos encontros - na esperança da diferença de um amanhã mais acompanhado por menos medo. Afinal, desde menina, mesmo antes do incidente na poeirenta secundária, sabia que havia qualquer coisa diferente no modo como percebia as coisas. Um dia, quando visitou a sua avó, viu no centro do peito dela uma bola de fogo, que tudo absorvia. Quando voltou a abrir, lenta e cuidadosamente, um de cada vez, os olhos, percebeu que olho esquerdo via outra coisa que o direito. E em torno da bola de fogo viu dez pessoas, e viu-se a si mesma, no patio da escola a ver a pedra projectil cegar-lhe clinicamente o olho. Como então ninguem acreditou no que insistentemente tentou relatar, também ninguem se recordou, mais tarde, que algures num tempo ido a menina ainda sem dentes relatara com precisão a ocorrencia. Das restantes 9 pessoas, somente conhecia a própria avó, que também lá estava. Não percebeu o que faziam. E eu estava lá.
Dizes-me, olhando com o teu olho que vê, deitada num quarto antigo, na casa fria de uma pessoa ainda mais antiga: vi-te a ti e à tua filha. Estavam lá, centenas de pessoas amontoavam-se e eram voçês quem estava lá. A imagem persegue-me todos os dias, na certeza do seu desfecho.
Conheci A. no passado século. QUANDO pela primeira vez nos encontrámos, olhou-me com o brilho do olho que sabe o que vê e eu soube que o este viu. Quando a criança nasceu A viu. Viu que estaremos lá - eu e quem gerei, no dia em já todos saberemos, que tudo mudou.
quinta-feira, 30 de Abril de 2009
p de paraiso e p de promessa
Soube que na sua juventude a senhora trouxera consigo Um corpo desejado pelos homens e grato à volupia. E ainda hoje não há quem deste não se lembre no bairro branco antigo que se debruça sobre o rio. Enquanto O trouxe consigo, O corpo, a senhora cumpriu o fado do desejo, e bem, honrando o calor que lhe corria no sangue. No entanto, mesmo nesses tempos activos, entre cada dia da sua vida, passava uma noite sentada, na poltrona carmin que herdara do tio africano. Na verdade, pouco sabia do antigo dono dessa poltrona sua companhia e que numa manhã de Agosto lhe chegara numa grande caixa de madeira, acompanhada de uma carta sumária, reduzida à estrutura linear das relações de sangue entre o antigo e a nova proprietária.
Quando a conheci, a senhora perdera já O corpo, cedido às noites de vigilia e entregue no curso dos anos aos designios do tempo. É curto o tempo dO corpo. Então, a silhueta do que o tempo e as noites ainda não tinham levado, desenhava-se curvada, todas as manhãs, no banco preto da rua do final do Paraíso. Sobre um livro.
No bairro, onde ninguem lia, a rara actividade constituia matéria para as mais cavalgantes ficções sobre a senhora dO corpo ido. Entre estas, contava-se que nunca fechara os olhos. Nunca. E que por isso, subitamente num dia santo, deixara de ser capaz de olhar para as pessoas. Só via os livros. Castigo diziam uns, alegria sentiam outras, saldando na suposta desgraça a inveja antiga. Inveja dO corpo.
Quando a senhora me olhou com os olhos que nunca se fecharam a senhora disse.
Recorda-te sempre, o amor é uma promessa. e nesta vida somente em duas situações se cumpre: nos livros e nas crianças. E cada um só vê o que é.
Nunca mais vi senhora no banco do Paraiso, a ler.
terça-feira, 28 de Abril de 2009
obliquidade temática
Lady C demorou-se longos anos na defesa de uma singular condição. Em tempos descobrira que a única modalidade possível para uma existência justa residia na condição da Torre de Pisa. Enfim, insistentemente discutira entre letrados e académicos, que essa condição diferia da que se atribui a Deus. Enfim, o dom da obliquididade temática nem sempre é bem acolhido.
domingo, 12 de Abril de 2009
latitude D.
pelo cintilar laranja da luz torrada dos candeiros as duvidas prolongavam-se pela noite, fria como se desconhecera por muitas décadas, naquela latitude. Os corações, minguados pela idade e pelas temperaturas agrestes, contavam mais batitdas do que seria de esperar, tornando as vidas mais intensas e mais curtas. Os domingos carregam de nostalgia as manhãs, sufocam as tardes e a unica coisa boa que trazem é o alivio de acabarem pela noite. De qualquer modo, há sempre promessa da ressurreição.
terça-feira, 7 de Abril de 2009
Jade
No dia em que nasceu o menino dos olhos de Jade, por segundos, as nuvens pararam no céu, as estrelas silenciaram-se e o mar debruou, mais demoradamente do que nunca, a areia com o seu veu de renda. Apesar de nunca ninguem ter notado, o menino dos olhos de Jade sofria antes já de saber falar, de uma dor terrivel, concomitante ao seu ser. Localizada no centro do seu peito, foi dignosticada como asma, alergia aos fenos, mau feitio, ansiedade precoce e por isso, pretexto para uns bons tabefes e grandes doses de cortizona.
Mas, na realidade, a origem dessa dor, alheia ao cardápio das maleitas clinicas, era de origem diafana. O reflexo luminoso das pedras preciosas na sua alma, tornavam-na tão luminosa quanto intolerante ao mal do mundo, ao erro, à injustiça. Somente de noite, quando os seus olhos estavam fechados e bem fechados, o menino dos olhos de jade conseguia apaziguar a dor de que padecia a sua alma, alastrada pelo seu corpo. Era então que sonhava. Sonhava com a luz de que era matéria a sua alma. E sonhava com um homem transparente, alado, que lhe estendia a mão enquanto ambos, suspensos no firmamento, se olhavam demoradamente. Quando acordava, o menino de jade chorava. E chorava por não conseguir compreender porque os outros meninos não amavam a delicadeza das palavras, a subtileza do silencio, o desfolhar das copas das árvores, a pureza da sua irmã. Por não conseguir compreender porque os outros meninos lutavam entre si, disparavam tiros de caçadeira contra os cães, apedrejavam os gatos e perseguiam as meninas pequeninas como eles mas inocentes como nunca chegaram a ser, para lhes apalpar os rabos magrinhos e insinuar outros abusos. Olhando o tecto da sua casa, uma pequenina casa, o menino dos olhos de jade chorava. Prometia a si mesmo que se tornaria forte, corajoso tanto e o suficiente, para compreender. Para compreender todas estas coisas, para compreender porque é que todos os dias tinha de rezar, bem ensinado por seu pai, pedindo perdão por essas coisas e outras que não tinha feito e que não compreendia, e pior, por ser o culpado pelo terrivel estado de um homem que apesar de ter nascido milenios antes dele, por sua culpa tinha sido pregado a uma cruz. O menino dos olhos de Jade queria compreender. Estava certo que na noite do dia em que compreendesse conseguiria segurar a mão do homem transparente, no firmamento.
À medida que crescia, a dor do menino dos olhos de Jade aumentava. Pois, os seus olhos, tambem esses se tornavam maiores. No entanto, com o tempo, o menino dos olhos de jade aprendeu a encontravar no conhecimento do mundo, nos conceitos e na filosofia, nas drogas e no amor casual uma subtil máscara - um rosto, que justificava a sua dor.
Mas o reflexo continuava a iluminar-lhe a alma. Com o tempo, deixou também de sonhar com o homem transparente do firmamento, aliás, deixou completamente de sonhar. Somente por vezes, sonhava com pessoas sem rosto, mudas e comprometidas, em conjura para o matar. Não compreendia que um menino que nasce com olhos de jade nao pode assim morrer. Com a idade, desapareceram os sonhos, a sua dor passou a vestir uma máscara, o seu passaporte foi centenas de vezes carimbado. O menino dos olhos de jade, nunca ficava mais do que poucos meses no mesmo sitio, corria o mundo na urgencia de compreender a sua dor, cada vez maior, cada vez mais facetada. Apesar de se ter tornado forte e destemido o menino de jade ainda chorava, no entanto, todas as noites. Sozinho ou quando a seu lado, um corpo abandonado a si mesmo, confirmava que a paixão mais não é que uma máscara para o grande sofrimento. E chorava na praia, para um buraco, gotas espessas de uma matéria vitrea, preciosa. E depois de chorar continuava. Continuava pelo mundo, procurando no rosto de uma virgem sem pecado, a pureza da luz da sua alma. Procurando nas palavras dos outros homens a clareza da luz da sua alma. Procurando na magia a dissolução do contraste da clareza sua alma com as trevas do mundo. Procurando que nas fiadas de linhas consignadas nos volumosos livros que escrevia nervosa e febrilmente, pudesse compreender - e que os outros compreendessem, a intolerancia da alma ao mal. Os seus olhos espelhavam a luz, o seu rosto a dor. A sua expressão, era a de quem não compreende. Porque nem as palavras, nem a virgindade do corpo, nem as letras eram da mesma natureza da clareza da alma.
No ano em que completou a idade de cristo, o menino dos olhos de jade pisou um rio. Num pais distante, dilacerado por guerras e morte, o menino já homem pisou o grande rio cor de jade que atravessa, insólitamente, a mais árida savana. Não és distinto do que ves, a luz e as trevas. Compreender é compreenderes-te. Disse o vento quando este se aproximou do rio. O menino, depois de ter enchido de lagrimas vitreas um buraco na areia escarlate que bordejava o rio, decidiu. Sentado sob nove sois, dez luas, centenas de nuvens, uma árvore e junto ao grande rio mergulhou, imóvel dentro de si mesmo. Quando se levantou, apenas o primeiro orvalho da noite o olhava - as unicas lagrimas que naquelas imediações restavam.
O rio murmurou, cor de jade. Na noite profunda, o menino olhou para baixo e viu o homem transparente. Estendeu-lhe a mão. Ambos flutuavam no firmamento, sobre a superficie do Grande Rio.
quinta-feira, 2 de Abril de 2009
sexta-feira, 20 de Março de 2009

Cada noite, conto-te uma estória, das que tu me ensinas. Aprendi a ler o mundo, no desfolhar das copas e no brilho salgado das ondas. contigo. Na tua presença, voltei a nascer, em cada toque, em cada sensação. Conto-te as estorias do mundo que me mostras, da vida que tu me ensinas. Cada noite, antes de te ver partir.
pérolas
quarta-feira, 18 de Março de 2009
Afinal

Caminhamos sobre o reflexo das estrelas, no mar vestido de negro e de espada embainhada. Dirigimo-nos ao horizonte. Não temos destino.
Ouvimos distantes as pedras rolar, na borda deslizante da baia outrora quente e perto o estalar das gotas da chuva.
Somos tão livres de nos mesmos, tão perto de tudo. Eu e tu. Caminhamos sobre as estrelas, rumo ao horizonte. Sei dizer que te amo em vários idiomas. Sei dizê-lo, mas nem no meu o sei sentir. Vejo como o verde dos teus olhos se adensa, fundo, na minha incerteza.
Pelas tardes quentes, sinto as tuas costas contra a minha barriga. Esperamos que anoiteça. Digo-te que sei dizer, em vários idiomas, que te amo, mas sei que nem no meu o posso sentir. Somos o mesmo corpo, a mesma textura, a mesma cor. O vento brilha no teu cabelo. Esperemos que anoiteça. Caminharemos sobre a estrelas. a chuva apaziguará o meu coração. Afinal.
terça-feira, 17 de Março de 2009
Sorbonne

Por incrivel que pareça, ontem de manhã, antes da casa acordar, das espirais flutuarem e do soalho ranger, o telefone tocou. Sim, não é o facto de um telefone tocar que torna tudo isto matéria singular. O insólito reside no facto de que: 1º eu não tenho um telefone; 2º ouvi as declarações mais desacertadas; 3º nunca estudei na Sorbonne.
O soalho range - é antiga a minha casa.
Como toca um telefone se não tenho telefone? como toca um telefone amarelo torrado, no centro no meu corredor? ...nunca mais bebi!
- estou? balbucio rouco. Ouço uma musica infernal, vinda do outro lado. Festiva, Balcãs?! Balcãs?! Alguem me liga dos balcãs em festa para um telefone de fio desligado, amarelo. amarelo!
-Sim, está certo no que afirma senhor. Ouvi vindo do outro lado. Lamento informa-lo, mas aqui fala do departamento da Alegria de Viver. disse uma voz de mulher, firme. Em virtude das suas ultimas questões existenciais, continuou, vimo-nos obrigados a estabelecer este contacto.
- boa... respondi. bem quer dizer, obrigado, não sei...
- Pois sim, tendo em conta que tem tentado regrar o irregravel, preocupando-se, a Comissão Instaladora das Celebrações, vem lembrar-lhe a alinea a) do artigo 1º do Código dos que Cumprem as suas Obrigações.
-Ok...diga lá...
-Lembro-lhe, continuou a mulher, que toda a celebração, todo o encontro funciona como uma chama - reúne dois ingredientes e a partir destes consome-se a si mesma. Alegria de viver...meu caro...alegria de viver...julgámos, precipitadamente, verifico, que tinha assimilado isto no seu ultimo ano na Sorbonne. Pois...suspirou...e espero que se recorde também que em virtude deste facto, jamais poderá impor regras, normas, o que for dessas coisas banais, burguesas -, a qualquer celebração, mas, e tão somente, disfruta-la. Aí reside a magia das celebrações, a intensidade dos encontros.
- pois, se a senhora o diz...'tou?! 'tou?. Nem voz nem musica. Mas que mal educada! Como?!
-Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. ouço somente um longo e solitário piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Estou desolado. Depois do telefonema voltei a dormir. E nunca mais encontrei um telefone amarelo.
America dos Indios
Encontrámo-nos na minha varanda, já de madrugada. A silhueta do Poodle de robe turco recortou-se contra o rio. Constatamos, em silencio, o imenso transito - as luzes pequenas, as luzes que cruzam a superfície rasgada, ao meio, pelo rasto da lua. Circunspeto, mas sempre displicente, o Poodle fixa-me. Com seus olhos muito pretos, muito pequenos, muito condensados. Diz: temos que devolver a América aos Indios.
nas ilhas das noites quentes
Lânguidos e lentos foram os dias que prolongaram o verão por um tempo surdo. Os corpos, já cansados de lutar contra a secura, recordavam os tempo em que a chuva cobriu de verde os caminhos e vestiu de frondoso lustre o capim. Dos dias em que mordiamos bagos de café, torrado. E depois de tudo, quando a luz da manhã cruzou o pó suspenso, regressámos aos tempos em que atravessámos um continente, recordámos os encontros perdidos, e a dor de ser somente por nada mais sobrar que o hábito de ser. Em silêncio, lembrei os corpos que me cruzaram sem me sentirem. E não consegui deixar de pensar no nosso reflexo, pelas montras de tantas cidades e nas janelas dos comboios - de tão parecidos que fomos, ao ponto de nos termos julgado como o mesmo. E perdi-me nas horas que entraram pela tarde, recordando, como me havia perdido em tempos, pelos teus braços, desenhados com mapas celestes em marcas douradas. Prolongavam os meus, num espanto quase insuportável, gerando o céu onde explodiu o meu peito - como nunca dantes, nas ilhas das noites quentes. Descanso agora. Já não tenho corpo nem sinto o sabor do café.
Lembro-me somente que te recordavas, na primeira noite em que te senti, que havíamos estado juntos, numa vida antes de termos nascido.
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um homem cruza o tempo, sem imagem, sem corpo. traz consigo uma dor que não lhe pertence, uma bondade que de si brotou. todos. visita-me em silhueta, todas as noites. aguarda-me num umbral de luz. uma janela, uma porta, não me sei. quem a deve atravessar? quantas vidas já viveu antes de viver a minha?
segunda-feira, 2 de Julho de 2007
VANDELLI BOX

Sei de um jardim antigo, muito antigo. A variedade das espécies que por lá se encontram tocam uma quantificação próxima do infinito. O jardim é cuidado. Está a cargo, de uma estirpe notável de homens e de mulheres, coadjuvados pela arte da música e das belas representações visuais - a arte do desenho e da pintura, da arquitectura e das alquimias interiores. Chamam-lhes poetas ou artistas, filósofos ou escritores, lunáticos ou nefelibatas. Eu sei do Jardim. Mas não sei de nada disso - limito-me, tão simplesmente, a passear pelo Jardim. Não poderei negar, no entanto, que sei que estes senhores, catalogados nessa fiada de nomes... artistas, filósofos, escritores, lunaticos...dedicaram-se, ao longo dos séculos, a aprofundadas investigações. Estudam as sementes da Língua, a musicalidade das composições concretas, a hibridação das formas, a visualidade da caligrafia. Sei que conhecem e trabalham - alguns intuitiva outros cientificamente, a genética das pétalas e dos caules, que dominam a subtil poética da floração e da polenização, da combinação e da poda.
Notaveis são os canteiros que povoam este jardim: ora organizados em paragrafos, ora em singelos haikai, ora em longas prosas poéticas. Pelo Outono, encontrei já - flutuando ao ritmo helicoidal dos caprichos do vento quente - silabas soltas, já desgastadas pelo uso nos tempos do Verão. Continuo a achar que devem ter pertencido a poemas de amor, ou a canções. São muito requesitados.
Confesso que que gosto de me demorar no labirinto barroco, onde dos caules de buxo despontam poemas simples, arrojados na visualidade e recordando sempre a vanitas. Vanitas condição de toda a materia que se escapa à perene fragrancia da Arte. Arte e de viver.
Já me disseram, e posso dizer quem: um dos filantropos que poda o canteiro dos contos fantásticos - homem singular e reconhecido pela sua capacidade de hibridação das sementes linguisticas, que para lá do labirinto barroco começa a floresta da filosofia moderna. Nunca estive por lá, mas todos os que passeiam no Jardim sabem que é, por natureza, concentrada e emersiva. Que dos troncos das árvores que nela habitam - fortes e estruturados, brotam acutilantes conceitos, duros e perenes como as agulhas dos pinheiros. Essas que somente se suavizam na intimidade do orvalho. Soube que os caminhos que cruzam a floresta são estreitos, e por vezes enganadores. Contam as estórias, que muitos por lá já se perderam - incapazes de gerir a arte do nexo e da alegria de viver.
Sempre que me sento no jardim dos poemas barrocos, penso na floresta da filosofia, e na curiosidade que em mim desperta. Mas por outra razão, é verdade. O filantropo dos canteiros do fantástico falou-me de um recanto, por lá perto, no fim do caminho estreito, onde brotam bambus, gigantes árvores exóticas e flores de dimensão e fragrância ímpar. É destas que se soltam, quando são tocadas pelo vento, koans e as palavras simples, capazes de de-estruturar toda a realidade. Já houve quem se tenha aventurado por lá. Dizem. E diz-se, também, que se tornaram pessoas realizadas.
Talvez um dia siga pelo caminho estreito e perfumado que atravessa a floresta da filosofia.
sexta-feira, 29 de Junho de 2007
...

Sonho-me. Vejo o meu corpo desfocado. Sonho-me com imagens que se encaixam com peças de um grande jogo, e entre elas as imagens dos espelhos - nestes estão reflectidas formas de afectos - sentimentos em expressão tonal - uma sonoridade familiar. Tenho um corpo outro, moldado por uma configuração que nunca foi a minha - e circulo, como uma briza, entre o que é matéria de reflexo. Corpos de gente indefinida, dos quais vejo apenas a silhueta recortanta entre a vibração tonal emanada pelos espelhos. Temos os pés emersos em água - ou será mercúrio? Sinto toda a planta dos meus pés. Olho as minhas mãos. E tudo se condensa agora no meu peito - uma dor antiga, cuja origem não me recordo, cuja presença sabe mais de mim do que eu próprio. Participa, de algum modo indefinido, da delicadeza com a qual o vento toca, nos dias do estio, o teu pescoço. Tens um pescoço dourado. Vejo as peças do grande jogo - encaixadas como espelhos - entre estas, o veludo dourado do teu pescoço, um vibrato azul, muito ténue, da cadência suave da tua respiração.
Um raio único
As manhãs já não foram com se esperava que fossem. Ali, passou a saber que os dias tinham a duração das horas e que as horas nunca demoravam mais do que um ano. Ou dois. Aí, a expectativa anulou-se, como se espera que se anulem os desejos.E as esperas longas. Afinal, não poderia esperar por ninguém, nem por nada. Porque todos se incluiam, em dimensões variáveis, num corpo único.
Numa dessas manhãs, em que delas já se sabia não se poder desejar a continuidade de um dia, o Sr. A.R. pensou ter encontrado a particularidade do sistema. E pensou poder congregar - nesse pensamento - todos os principios alquimicos onde a acção implicada em VITRIOL organiza em medida de ordem e potencialidade, escapando à margem entrópica de tudo o que já havia analizado, a franja de todas as expectativas.
Dançam dois raios dourados das manhãs, pelas paredes demasiados brancas. Pelo caminho, cruzam-se com a poeira semi-suspensa. A poeira dos dias e do que ficou dos encontros. Afinal, nada disso é assim tão importante. Sr. A.R. tentava convencer-se disso.
Somos em espaço negativo ou somos em espaço positivo? Ou será que somos o espaço que de delimita pelos encontros. Espaços que combinam mundos, que geram galaxias, que instauram campanhas arqueológicas nos passados e fragmentam os cristais do hábito. Confirmava-se, na observação atenta da poeira, o que no peito de Sr. A.R. doia em vazio: os fragmentos dos espaços gerados dos momentos, presentifica-se em poeira suspensa, delimitada a ouro pela luz.
A ausencia em tudo se confirma. A distancia revela o banal, o brilho das coisas participa de Deus. Como o brilho do teu olhar, acrescentou, sussurrou, repetiu num quase silencio. É aí que se condensam todos os fogos, onde não somos nem um nem dois, nem todos nem passado, nem eu nem tu. Um corpo único - o fogo que queima o tempo na sintese dos dias nas horas e nas horas que sempre ultrapassaram um ano.
Um raio único cruza a poeira dos dias. No meu peito repousa um guerreiro.
quinta-feira, 28 de Junho de 2007
Botânica
Acordo e sinto o teu perfil, desenhado a luz, contra o papel adamascado deste quarto antigo. Tão antigo. Sinto-te na antiguidade ancestral da tua presença no meu corpo. Disseram-me que as paredes deste quarto contam estórias de feitiçaria e magia cigana, e que sabem das mágoas e dos sonhos de todos os que aqui adormecem. De todos os que dão a mão, perdendo-se, na companhia de Orfeu. Disseram-me também, que pelos ramos do padrão do papel de parede, elas os agarram, devendo-se a esse fenómeno, a distinta variedade de flores que compõe esta parede. Diz-se, e eu confirmei, que os sonhos aqui capturados são pelas flores guardados, enformando as pétalas, caules e folhas impressas nessa superficie acetinada, brilhante.
Sinto as minhas costas estenderem-se contra o colchão mole. Também são costas antigas. Na ausência do teu perfil, tento localizar no papel de parede os teus sonhos, e os sonhos que aqui sonhámos juntos.
Sinto as minhas costas estenderem-se contra o colchão mole. Também são costas antigas. Na ausência do teu perfil, tento localizar no papel de parede os teus sonhos, e os sonhos que aqui sonhámos juntos.
No silêncio, tal como na ausência
Por vezes, no lusco-fusco da consciência, quando ainda não dormimos mas também não estamos despertos, sonhamos - ou melhor, somos visitados. Somos atravessados por vidas - strata de imagens, arqueologias de afectos, condensados de sentimentos e fotografias desfocadas de nós mesmos.
Num desses dias em que as chuvas cobriram de verde os caminhos e em que o capim se perfumou de frondoso lustre, fui visitado. Num espelho, outro espelho estava reflectido. Um espelho que é objecto de um outro espelho confirma a natureza do espelho, pensei. Confirma-se a si mesmo. Deixei de respirar. O espelho não se limitava a reflectir e, no espaço tenso deixado pela suspensão da minha respiração, tive a certeza de que os espelhos se procuravam nos reflexos. Sabiam-se não coincidentes com a moldura ( uma barroca, outra resultado dessa linhagem de objectos nascida depois da grande exposição de 1925), nem com a forma. Nem com o tempo, nem com os percursos ( quantas vidas não viram já os espelhos de tantos séculos').
Encontravam-se na matéria do reflexo, confirmavam-se no encontro com o outro espelho, sem no entanto, nenhum deles ter consciencia de ser um espelho - o reflexo do mesmo encontra o mesmo, mas sem objecto, o mesmo é o seu próprio encontro. O Jogo dos espelhos. Acordei, ou melhor, regressei. A chuva rolava, de novo, em fiadas de pérolas pelos vidros do carro. A viagem continua. Como o jogo dos espelhos.
Os rails rasgam a branco, sincopada e ritmicamente, a chapa nocturna. Deixou de chover.A viagem continua. Sinto o cheiro húmido da noite e tenho por companhia estes céus estrelados que somente o hemisfério sul nos pode dar. No silencio, tal como na ausência, todas as presenças se confirmam.
Viajo como um cometa, tenho cauda de asfalto.
Sempre soube que é na noite das viagens que as memórias me tomam - ecoam, formatadas à medida da música que salta do rádio. E deixo de ouvir. Sou tomado pela imagem do eco das semi-transparências que se encadeiam, entre mim e a estrada que corre, como embaixadas exóticas de raridades, aberrações e sublime maravilhoso. No exubrante cortejo que se anima sobre o tablier do carro, vejo-vos a todos. Por vezes sinto o cheiro dos momentos mais felizes, e com estranheza o calor, a vibração de alguns corpos com que me cruzei. Tudo se actualiza quando sinto. Quando sinto uma saudade tão antiga, uma saudade de um silêncio antigo.
No silêncio, tal como na ausência, todas as presenças se confirmam.
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